1 Por que se amotinam os gentios, e os povos imaginam coisas vãs?
2 Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o SENHOR e contra o seu ungido, dizendo:
3 Rompamos as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas.
4 Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles.
5 Então lhes falará na sua ira, e no seu furor os turbará.
6 Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião.
7 Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.
8 Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão.
9 Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro.
10 Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra.
11 Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor.
12 Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; Bem-aventurados todos aqueles que nele confiam.
Este é um dos salmos mais citados no Novo Testamento e em todas as citações ele é aplicado a pessoa de Cristo. Mas, para interpretá-lo corretamente é preciso verificar todas as citações e o contexto no qual o salmo foi aplicado:
- Os discípulos após ouvirem o relato de Pedro e João acerca da determinação dos sacerdotes e anciãos proibindo que fosse anunciado o nome de Jesus, fizeram a seguinte oração: "Senhor, tu és o Deus que fizeste o céu, e a terra, e o mar e tudo o que neles há; Que disseste pela boca de Davi, teu servo: Por que bramaram os gentios, e os povos pensaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, E os príncipes se ajuntaram à uma, Contra o Senhor e contra o seu Ungido. Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel..." At 4: 24- 27.
Ao citarem uma fração do Salmo II, os discípulos evidenciaram que Deus é o autor da mensagem contida no salmo e que o rei Davi foi quem o compôs na condição de servo de Deus. Os discípulos também identificam a Cristo como sendo o ungido Filho de Deus que o salmo faz referência.
Os discípulos deixam claro que apesar dos gentios e judeus terem se insurgido contra Cristo, fizeram somente o que Deus havia determinado segundo a sua vontade.
- Outra citação do Salmo II foi registrado em um discurso de Paulo em uma sinagoga na cidade Pisídia "Tu és meu Filho, hoje te gerei" At 13: 33. Paulo faz tal citação a fim de deixar claro que o Jesus que crucificaram ressurgiu dentre os mortos por ser o Filho de Deus;
- O escritor aos Hebreus ao falar da pessoa de Jesus também fez referência a Filiação divina citando o Salmo II duas vezes Hb 1: 5 e 5: 5.
Este salmo é composto por cinco grupos de idéias. Estas idéias estão intimamente vinculadas, mas para fins de análise, serão analisadas em separado.
O salmo apresenta a terra como palco de uma rebelião de reis contra o Ungido de Deus. Estes reis estão sob domínio de Cristo, o Rei dos reis. Se olharmos para o passado histórico da humanidade, não temos o Jesus de Nazaré na condição de Rei sobre reis, o que demonstra por sí só que esta profecia ainda está por cumprir.
Também não há paralelo na história de que o Ungido de Deus descrito neste salmo seja Davi ou Salomão, visto que, o reinado destes dois grandes reis de Israel não alcançou a dimensão aqui descrita.
Os discípulos entenderam que este salmo aplica-se a pessoa de Cristo, e assim deve ser interpretado.
Este salmo também chama a atenção pela narrativa: o salmista escreve na condição do próprio ungido de Deus.
Não podemos esquecer que a missão primordial dos salmistas era a de profetizar "E Davi, juntamente com os capitães do exército, separou para o ministério os filhos de Asafe, e de Hemã, e de Jedutum, para profetizarem com harpas, com címbalos, e com saltérios; e este foi o número dos homens aptos para a obra do seu ministério" (I Crônicas 25: 1).
Este salmo apresentar um quadro futurista que ainda não se cumpriu. A forma de registro deste salmo auxilia na memorização, mas a qualidade de cântico não suplanta a profética.
"Por que se amotinam os gentios, e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o SENHOR e contra o seu ungido, dizendo: Rompamos as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas"
O salmista na condição de profeta visualizou uma insurreição dos reis da terra contra o ungido de Deus. Estes se unem com intenção clara de não se submeterem mais ao domínio de Deus e do seu ungido. Estes reis sentem-se presos e combinam entre si livrarem-se do controle estabelecido por Deus.
O salmista questiona a atitude dos reis em tentar combater contra o Criador. Se a insurreição fosse contra um reino humano, não haveria o que questionar, mas o que pretendiam levar a efeito, lutar contra o ungido de Deus é loucura.
A descrição do salmista desta insurreição demonstra que será estabelecido um reino futuro cujo rei será o próprio Filho de Deus. Vários profetas deixaram registro de que haverá um dia em que todos os povos haverão de se curvar a Cristo quando na condição de rei Mq 4: 1- 3.
Este salmo não apresenta nenhuma figura para descrever o futuro reino do Messias, diferente de outras profecias que utilizam várias figuras.
"Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles. Então lhes falará na sua ira, e no seu furor os turbará. Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião"
O salmista demonstra que a atitude dos reis da terra não passou despercebida do Criador. A atitude dos reis é tão descabida que o riso é única reação imediata do Criador. Deus só dirigirá a palavra aos revoltosos quando da sua ira, ou seja, em um tempo predeterminado.
A despeito da atitude dos revoltosos, Deus reafirma que ungiu o seu Rei sobre o santo monte, Sião. 'Monte' significa nação. Enquanto os outros povos são descritos como sendo 'outeiros' (grandes nações), Israel é descrito como sendo um monte.
"Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão. Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro"
O reinado de Jesus foi estabelecido por um decreto de Deus.
Neste ponto verifica-se que o salmista escreve na posição do Ungido de Deus. É como se o próprio Cristo estivesse retransmitindo o que Deus lhe disse: "O Senhor me disse: Tu és meu Filho...".
O ungido do Senhor demonstra que o decreto de Deus diz dele: "Tu és meu Filho, eu hoje te gerei". Por ser Filho do Senhor, por ter sido gerado de Deus, o Ungido demonstra que os fins da terra foram dados por possessão.
Qual a possessão (herança) do Filho de Deus? Deus deu por herança a seu Filho os povos e toda a extensão da terra. Deus concede uma herdade ao seu Filho e controle por completo sobre os reis da terra. Todo e qualquer domínio que houver sobre a face da terra será desfeito e passado ao Filho de Deus "Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre" Dn 2: 44.
A vara de ferro fala da força do reino estabelecido, e o vaso demonstra a fragilidade dos reinos conquistados.
Uma característica do salmo segundo é ser messiânico e futurista, porém, vale destacar que a narrativa do salmo foi estruturado do ponto de vista do ungido, e não do salmista. O salmo 110 apresenta a narrativa do ponto de vista do salmista. Estas observações são necessárias a uma boa interpretação.
Observe que o Senhor disse o seu decreto ao seu ungido diretamente: "Tu és o meu Filho", diferente da declaração de Deus quando registrada pelo salmista: "Disse o Senhor ao meu Senhor" Sl 110: 1. O salmista é servo dos dois Senhores apresentado: Pai e Filho.
"Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira"
Diante do comportamento dos reis da terra, o ungido de Deus aconselha os revoltosos.
Os reis sabem que o domínio foi entregue por Deus a seu Filho, e por que insistem em rebelar-se. A prudência é o melhor caminho aos reis da terra. Deixarem ser instruídos pelo Rei dos reis e servi-lo e alegria constante.
Se os reis da terra se submeterem ao ungido do Senhor, estariam servindo a Deus com temor! O servir com tremor é alegria.
Deveriam reverenciar o Filho de Deus, que foi ungido como rei sobre toda a terra. Qualquer atitude contrária é provocar a ira de Deus.
Uma coisa é certa: a ira de Deus se acenderá, mas aqueles que se deixarem instruir não pereceram. Já aqueles que escolherem o caminho da rebelião beberão do cálice da ira de Deus.
"Bem-aventurados todos aqueles que nele confiam"
A bem-aventurança decorre da confiança que o homem tem no seu Criador. Todos os reis da terra que se deixarem instruir serão bem-aventurados, entrarão no reino milenial de Cristo.
Este último versículo demonstra uma realidade em todas as épocas: hoje e sempre a salvação advém de Deus, preparada para aqueles que nele confiam.
Não são as ações do homem que agradam a Deus. O homem só agrada a Deus quando reconhece as suas limitações e confia em Deus que é poderoso para salvar. Está é a alegria prometida: a alegria da salvação.







